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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Arvoredo

(poema escrito e lido em Portugal, no dia da árvore, em 2007)

Um galo sozinho não tece uma manhã
João Cabral de Melo Neto

Uma só árvore não desenha
a primavera
e o outono veste-se com incontáveis
folhas mortas
sozinha não abre a flor sem
a luz do sol
que aquece a pedra, o solo
e a raiz
o pardal devora o grão
e o semeia
sempre em companhia
de outros pardais
cantam em coro sabiás e sanhaçus
inhambus e juritis
voam em nuvens borboletas
gafanhotos
orquestra-se dessa forma tudo
que é imóvel
e ainda o inanimado e
o semovente
é assim com a flor, a flora
na floresta
assim é com toda a fauna
a humana até
trilhões de seres a viver
e reviver
trilhões de árvores a florir
frutificar
que uma só árvore não desenha
a primavera
e o outono veste-se com incontáveis
folhas mortas

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